O Retorno de ED

A Saga do Despertar

-Eu gosto de conhecer lugares, sou um viajante solitário, sem rumo, minha companhia é meu barco, eu me guio pelas estrelas, adoro a noite e olhar o céu estrelado…

 dia amanheceu nublado, o vento soprava gelado, o céu estava cinzento, abri a cortina empoeirada, as crianças estavam brincando perto das águas tentando pegar peixes pequenos, procuravam girinos, eu adorava vê-las, se divertirem umas com as outras logo pela manhã, sorria para elas mas elas me olhavam assustadas e saiam correndo quando me aproximava delas, eu sabia porque, seus pais me achavam esquisita, muitas vezes elas me viam falar sozinha perto das águas e rezar, me chamavam de bruxa feiticeira, eu não ligava.

Não gostavam quando buscava ervas para tomar meus chás e fazer meus banhos, diziam que eu não era boa companhia, mas não me importava, já as senhoras mais velhas gostavam de mim devido aos cuidados que eu lhes prestava, muitas eram abandonadas por seus filhos, não me custava nada levar-lhes um pouco de alimento, chás, frutas e hortaliças, ou ler uma boa leitura, embora livros fossem proibidos, mas eu mais inventava histórias, do que lia o que estava escrito naqueles livros…

Mas logo fui interrompida pelos gritos de minha mãe, tinha que ajudar a arrumar a casa e cuidar de meus irmãos, eu fazia tudo, corria como se o tempo fosse meu maior inimigo, o dia passara rapidamente a noite chegara à tarde, a ventania aumentou, fechamos toda a casa, ventava tanto que parecia que o teto ia cair, os cavalos foram amarrados para que não fugissem assustados com a tempestade que logo chegaria , minha mãe e meus irmãos foram para o cômodo dos fundos onde era mais seguro.

Então eu ouvi os cavalos, eles estavam agitados, muito agitados, o estrondo do mar revolto nas pedras assustava, o assovio ruidoso do vento que uivava, era realmente assustador, tenebroso, minha mãe aparecera a sala assustada dizendo: 

-Myra minha filha estou preocupada com os cavalos.

-Vou até lá mamãe.

-Ai minha filha, tome cuidado!

Fui imediatamente, coloquei uma capa em cima da minha roupagem branca e fui ao meio da tempestade, quando entrei no celeiro, um dos cavalos assustados fugiu, montei no outro e fui atrás dele gritando, minha capa voou com vento desamarrando do meu pescoço,não consegui alcançá-lo, quando resolvi voltar com medo ouvi um estrondo um barulho assustador, vi um barco um casco bater no rochedo e quebrar diante das pedras o cavalo deu um solavanco para trás e me jogou no chão eu levantei e olhei para o barco perguntando se havia alguém ali, vi um homem caído ao chão com uma veste marrom, ele estava com a cabeça ferida havia batido nas pedras estava desmaiado ,consegui chegar perto dele e ver que ele respirava, por sorte estava vivo…ele tinha a aparência de um homem de mais de cinquenta anos poucos cabelos, cabelos ralos uma barba rala esbranquiçada cabelos grisalhos e a tez branca, embora estivesse avermelhada por causa do sol, o que ele estaria fazendo ali?

O que será que ele estaria fazendo em nosso povoado?

Fazia tempos que não aparecia alguém em nosso povoado, não havia riqueza em nosso povoado, não havia nada de valor em nossa terra, não havia riqueza em nosso mar, muito pelo contrário,  de onde viemos, o que sobrou de nosso povo, foi um povo amargurado, sem fé e nem esperança, que foi muito prejudicado por um governante autoritário, que foi vencido na guerra e que deixou o povo morrer de fome e de sede, e prejudicou ainda mais nosso povo tirando nossas terras e nossas moradias, trabalho e dignidade.

Sobraram apenas muitas mulheres que lutam para sobreviver e cuidar de seus filhos,  sem maridos.  pois que ainda estão lutando na guerra para ajudar aos poderosos enriquecerem, esquecendo de suas famílias, muitos também estão morrendo em busca de uma terra melhor para seus filhos, uma terra melhor, mas que nunca vem..

A humanidade está perdendo o amor ao próximo, a compaixão pelo ser humano em busca do poder, quando eu falo isso, as pessoas dizem que eu sou uma pessoa desumana e vazia, egoísta, que eu não penso no nosso povo e na civilização futura do nosso mundo como eles.

Agora lá estava aquele homem em minha frente, a água começou a subir, eu consegui arrastar aquele corpo pesado para cima para que ele não afogasse, com toda minha força arrastei-o o máximo que eu pude, até que ele tossiu, eu assustei quando ele abriu os olhos e segurou meu braço.

-Quem és?

-Sou Myra, meu nome é Myra, houve um acidente com seu barco, tem mais alguém com o senhor?

-Não, minha cabeça e minhas costas doem…

-A tempestade está voltando o senhor tem que me ajudar para levanta-lo e vir comigo para minha morada.

-Eu vou tentar, meu nome é Edvard, mas pode me chamar de Ed.

Ed se levantou com dificuldade e colocou o braço envolta de meu pescoço, caminhamos até meu cavalo que lá estava e conseguimos montar e voltar para minha morada.

Sentei  ele perto da lareira, fiz um chá quente para aquecê-lo, dei-lhe uma manta de pele quente, peguei algumas ervas e coloquei no ferimento da cabeça, a tempestade continuou a noite toda, minha mãe deu-lhe um prato de sopa,  Ed sorveu o prato quente e adormeceu perto da Lareira.

A minha mãe olhou-me, dizendo:

-Myra minha filha, sempre ajudando estranhos, filha, não fale com ele de suas visões e de tudo que sabe, tivemos que fugir porque fostes perseguida, entendeste, as ervas também não deveria ter colocado em sua cabeça.

Já fostes perseguida por jesuítas e religiosos, muitos acham que és uma feiticeira e que mexes com forças malignas, embora só faças o bem para as pessoas.

Fique sossegada minha querida mãe, eu não falarei nada, eu juro, lembra que eu sempre falei que eu via um homem chegando em uma embarcação, ele chegou, tenho certeza que é ele , eu o reconheci assim que eu o vi… hoje dormirei em paz e dormirei feliz.

Eu beijei o rosto de minha mãe e fui dormir, embora notando preocupação no semblante de minha mãe.

A tempestade continuou a noite toda…

 

Amanheceu o dia, o céu abrira em um lindo tom azulado, o sol voltara a brilhar, minha mãe acordava às seis da manhã e me acordou dizendo que o tal homem sumira. Acordei assustada, lavei meu rosto, peguei minha veste azul escura e fui caminhar para procurá-lo gritando seu nome, pensei, ele só poderia estar em um lugar. no barco.

Voltei para minha morada, peguei um pedaço de pão e um caneca de leite puro e fui caminhando até onde estava a embarcação, lá estava ele.

Eu me aproximei, ele estava tentando arrumar, com dificuldade, o buraco enorme, o estrago que o rochedo havia deixado no casco do barco, ele falava sozinho, eu comecei a rir, pois percebi que eu não era a única que tinha esse costume, ele me olhou com certa braveza, eu meia sem jeito estendi minhas mãos com a caneca com leite e o pão dizendo:

-Se o senhor não se alimentar hoje, cairá de fraqueza!

Ed pegou a caneca e o pão de minhas mãos e deu um sorriso sem jeito de agradecimento, era um homem muito sério, de poucas palavras, olhei para o barco tentando puxar um assunto enquanto ele comia.

-O Senhor terá um longo trabalho para consertá-lo, não será nada fácil, que ventos o trazem aqui?

Ed me olhou fixamente dizendo:

-Eu gosto de conhecer lugares, sou um viajante solitário, sem rumo, minha companhia é meu barco, eu me guio pelas estrelas, adoro a noite e olhar o céu estrelado, isso quando não dou o azar de pegar uma tempestade como essas, que me desvia do rumo certo.

-Então seu destino não era vir aqui?

-Porque tens tanto interesse em saber?

-Ora, curiosidade, se estás em minha morada, tenho que saber sobre sua vida, não tens família, és um viajante solitário, está em busca de algo, qual é seu propósito de viajar sozinho desbravando o oceano, viajando pelo mundo?

-Estou à procura de eu mesmo, eu não pousarei em sua morada, passarei a noite em meu barco, ele secará, não trarei desconforto a vossa família.

– Ora, não é incomodo algum, não estou desconfiando de ti, não me ofenda.

-Perdoe-me, não quis ofendê-la, vou terminar o meu barco, tenho que limpá-lo!

Sai com coração partido, ele não era o homem da embarcação que eu esperava, deixou claro que a tempestade trouxe ele para o rumo errado, que era um viajante solitário e que não veio buscar nada ali, eu achei que ele fosse descobrir algo sobre mim, me levar para conhecer um mundo fora dali, onde eu pudesse mostrar meus dons, quem eu sou, onde eu não fosse banida e nem perseguida, onde eu pudesse ajudar, curar as pessoas, onde eu pudesse mostrar quem eu sou e encontrar pessoas como eu, onde eu pudesse não ser tachada como uma feiticeira. mas aquele homem sério, vazio sisudo não tinha nada para me oferecer, ele era seco como o casco velho daquele barco.

Eu fiquei tão triste e atordoada, que adentrei em minha morada e falei a minha mãe:

-Esqueça aquele velho, esqueça, não deveria ter levado desjejum a ele, ele é um ingrato, eu jamais vou sair desse lugar, jamais vou encontrar com pessoas parecidas comigo, jamais.

Minha mãe segurando uma toalha, entrou no único aposento que tinha em nossa humilde morada onde dormíamos todos juntos, dizendo:

-minha filha não percas a fé e a esperança, nem tudo é o que parece ser, estás tão ansiosa que não esperas as coisas acontecerem, existe o tempo certo de cada coisa, uma fruta não cai da árvore se não estiver madura…

Eu olhei para o semblante calmo de minha mãe e pensei como ela sempre tem razão, isso me acalmou muito.

A minha mãe me chamara horas depois, pedindo para que eu levasse um prato de comida e uma  caneca de água fresca para o Ed, passada minha indignação eu levei reclamando, mas feliz, minha mãe ficava rindo sozinha na porta, cheguei na embarcação, Ed estava dormindo, deixei o prato e a água do lado dele, não quis acordá-lo, e saí sem fazer qualquer ruido, Ed acordara e vendo a caneca e o prato de comida, sorriu, dizendo a si mesmo:

-Olhe Sacerdotisa, és uma sacerdotisa e ainda não sabes, lembra muito a minha sacerdotisa, o sol da minha vida, quem eu vim encontrar aqui, eu tenho certeza que ela foi escondida de mim aqui, veio  para esse lugar, o sol da minha vida, eu vou encontrá-la, e quem vai me ajudar será tu, sacerdotisa, tu que trouxeste este prato de comida.

Ed sorriu e comeu a comida com gosto, não estava ali por acaso a tempestade levara ele ao lugar certo, tinha certeza que agora estava no lugar certo, por anos estava a procura do grande amor que fora afastado de sua vida…

Ed continuou a consertar o barco, queria arrumá-lo para sair dali junto ao grande amor da sua vida, ele tinha a certeza que encontraria o seu grande amor que fora tirado na juventude de sua vida, só assim o sol voltaria a brilhar.

 

 

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